Monday, November 23, 2009
FLECHA
Sunday, November 15, 2009
GRUTA

ninguém
em meu peito há.
corpo sem rosto,
chama sem nome.
por ti, ninguém,
eu chamo.
só tu, ninguém,
respondes.
ninguém que bem
me ama.
ninguém em minha
cama.
se ao menos
na hora do gozo,
ulisses,
me desses teu gosto...
SELA
molha a saliva
de tua filha cálida,
que outro amor
não restou
se não a fera...
Libera-a.
Friday, November 13, 2009
Pra quem está por Salvador

Mais informações no blog http://grupogongo.blogspot.com/2009/10/pinocchio.html
Sunday, November 01, 2009
LUNÁRIO
Ilustração: Vânia MedeirosO que a terra seca,
aterra e desterra.
Pelo vinco sagrado,
desenterro-me
sob o palácio estrelado,
aterrorizado.
Sou teu filho, Estrondo.
Sou teu filho, Espanto.
Sou teu filho, Luz.
Nasci do mistério
e estranho tudo.
Mas floresço
e sei.
Friday, October 30, 2009
MATIZ
Ilustração: Vânia MedeirosEm meu altar invisível,
santa, puta, louca
e qualquer outra
olham por mim.
Não há notícia nisto
e firmemente sigo a risca
o rito incompreendido
de ser ave e ser mulher.
Umas, no firmamento,
brilham e gritam
que não desistamos.
Descobre teu peito, Ana,
e ama,
sem bondade e com
violência...
Ainda que te odeiem, ama,
ainda que te prendam, ama
ainda que te deixem.
Que esta é a herança
das estrelas
e nossa rebeldia.
Saturday, October 24, 2009
FLAMA
Eu sei a cor dos infernos.
É nítida pra mim a boca enorme do universo
pronta pra me devorar.
Abrigo vertigens, ânsias, tormentos.
Sinto o rufar de meu peito transtornando
minhas entranhas, insone.
Percorro a rota das estrelas, o séquito das almas,
o definhar da carne.
Chego a antever chegadas e partidas
dos portais celestiais.
Não sei de haver-me outra sentença
que não, à frente, essa fogueira...
Que venha, então, meu inquisidor,
e ardamos.
Monday, October 12, 2009
DOMINGO
Ilustração: Vânia MedeirosVejo passar Maria,
Alzira, Altair.
Vejo a avó, a mãe,
a filha.
Vejo a ave, Avé,
Maria.
Passam todos
pouco a pouco.
De uns, resta
a obra, o nome,
Dos meus,
a memória,
o ensinamento.
De todo passo,
um movimento.
Resta em tudo
qualquer coisa.
E não resta
outra coisa,
nem matéria
nem sentido,
que não vida.
Passaredo.
MARIA GENI
Ilustração: Vânia MedeirosMinha vó tinha nove filhos e uma butique
e, certa feita, saiu no jornal da cidade.
Catava meus piolhos da infância
e me dizia que rezasse a São José, meu padroeiro.
Outro dia, me deu uma bíblia amarelada, pediu que eu lesse;
na dedicatória, escreveu ser presente dela e de meu avô,
que nem cheguei a conhecer.
Minha vó era viúva e paraibana,
mas morava em Conquista desde sempre
e, desde que existo, na casa 8,
que tempos depois ganhou uma cor azul.
Numa tarde, em delírio, viu varais em meus cabelos,
falou de homem com lascívia e pediu que lhe servissem
um bocadinho de cocô para o almoço.
Em tudo via gosto minha vó.
Nunca chorou pitanga, nem juntou amargura,
no entanto, não deixava que uma réstia de dor passasse
sem ser devidamente observada e dissolvida.
Quando eu lhe dizia te amo, ela assentia sem atavio,
que amor se conta é com fato e modo,
mas isto em tempo eu aprenderia.
Beata cumpridora,
poder-se-ia esperar um legado de fé cega e boas maneiras.
Antes, porém, minha vó deixou-me
faca amolada e bons desejos,
coisas de terra e liberdade
para esta vida-bela-guerra.


