Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012



Ilustração: Vânia Medeiros



Cabelos espalhados pelo chão,
dentes e ossos que se quebram
e resistirão, alquebrados,
como prova cabal do fim.
Uma carne que resfria e esquenta,
restos e mais restos,
sombras e sombras,
disso sou feita,
e por que na noite tremo
com medo de um vulto qualquer?
Reconhecer-me no espelho
antepassada e prisioneira
de uma eternidade inexorável,
a qual tento louvar
sem deixar de estremecer,
faz dos meus dias
uma corrida ofegante
pela invisível esteira
instalada em meu pânico.
Um dia ainda gritarei
para os seres assombrosos
desta casa, desta cidade,
“está em mim a mãe dos abismos,
a morta e desesperada,
são vocês que tem que correr!”.
Um dia, me lanço no precipício
de minha própria noite
como uma coruja de lânguido canto
e espanto todos as idéias
apodrecidas e pegajosas
que se espalham
por meus pensamentos
e tentam me espantar de mim.
Um dia, abro os braços
para a morta que me habita
e declaro vigorosamente,
unindo meu timbre
à sua garganta fria,
“a roda gira e é chegada a hora
de lembrar e ser:
acorda e vive!”

Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

A Garoa da Meia-Noite

Deixe a cabeça no tempo pra receber
as gotas de saliva e sangue que escorrerão
como garoa, à meia-noite.

Eu vou ferir a boca da treva
com este martelo encravado
em meu tórax.

Estará expirada a cura e encenarei
minha entrega à peste sem antídoto
frente a todos os olhos,
mas poucos olharão.

(A promessa de conforto morreu,
esta apodrecendo dentro
de seu guarda-pó).

Ser violenta foi única opção
que me restou, já que ser sofredora
nunca foi possível.

Sei que estou muito longe,
sou a mulher de outro,
a mulher do monstro invisível,
só quem não me visse
se aproximaria.

E nada disso importa.

Deixe a cabeça no tempo pra receber
as gotas de saliva e sangue que escorrerão
como garoa, à meia-noite.

Sábado, Janeiro 14, 2012

Deliquescência, a palavra santa.

Deixo que a lama cubra-me o corpo, não pra afogar-me, mas porque quero beijar a boca visguenta das minhocas sagradas – mas é claro que são sagrados estes seres que não temem o escuro e não tem claustrofobia e ajudam a terra a respirar. Coberta de lama, sinto-me embrenhada na terra, é um desejo que tenho de embrionar-me no subterrâneo, pra que, travestida de minhoca, eu também possa ajudar minhas trevas a respirarem, e delas eu rebente sendo entregue a uma luz sem alvuras de botique. É verdade que agora estou cheia de dor, e você sabe o quanto certas coisas que a vida faz com a gente doem, e essa coisa de amor e desamor e solidão, você sabe o quanto doe, eu não vou negar que dói muitíssimo, eu não vou esconder minha cara de dor, olha aqui minha dor, mas esse meu jeito de morrer não é nem de longe sinal de desistência ou covardia, entenda bem, eu morro forte como um maratonista, apenas entrego meu corpo a uma imagem mais próxima de seu destino: o ventre aberto - entranhas à mostra em todo seu esplendor e podridão. E, para além disso, eu morro porque conheço a morte e sei o quanto ela é grande e vívida e verdadeira, então preciso experimentá-la muitas vezes. Em outras palavras, eu não posso deixar que a amargura me invada, eu não posso deixar que o medo ganhe mais corpo do que teve até agora, pelo contrário, eu quero poder falar dessa memória, desses desejos, sem névoas nos olhos, sem pedras na garganta, por isso agora lanço pedras no abismo, por isso agora cruzo as névoas, por isso ando no meio da rua nua e melada de lama porque aquelas roupas todas já não me serviam e me atrevo a tudo que seja sincero como esta nudez e esta lama são. Nessa viagem que traço pelos porões de minha alma e do mundo, eu teria mais histórias pra narrar do que Marco Polo, mas não há tantas palavras pra descrever a escuridão. E é bom esclarecer que eu vim a este bar foi pra encontrar-me comigo mesma, eu não tô esperando ninguém a não ser a mim e se alguém vier acompanhando-me, então que legal, vamos conversar e ver o que acontece. E se alguém chegar como você e escavar com esses olhos fundos meu rosto e minhas sombras e disser, “olha só como somos vastos”, pode ser que eu lhe mostre meu corpo enlamaçado e que descubramos quantas maravilhas brotam no mangue. Talvez alguma coisa comece agora, mas o mais importante não é o que começa, mas o que acontece, vamos abrir espaços. É assim e só: coragem e paciência pra, com uma cara de susto, virar verme e morrer e, com uma cara de susto, morder o verme e nascer. Todo esse acontecimento é lindíssimo, você não acha?

Deliquescência, a palavra santa.

Segunda-feira, Dezembro 26, 2011

TREVO

Ilustração: Vânia Medeiros


Mais uma vez chego à encruzilhada
no final da estrada e é hora de decidir
entre ficar na ponte assustadora
que leva ao infinito
ou descer pelo caminho de terra
que me levará pra casa.
Essa é a escolha de cada dia:
lançar-se ou poupar-se,
ir pelo estreito ou pelo largo,
exceder no golpe e na carreira
ou persistir no devagar e sempre.
Sou louca mansa
e há sempre a dúvida entre o que sugere
minha mansidão e o que sugere minha loucura.
Meus sonhos clarificam meus pensamentos
através de signos obscuros
e neste paradoxo revela-se
a imagem central de meu destino:
um ponto de luz atravessando as sombras.
No ato de ser e seguir acho um prazer imenso:
não tenho remédio, não tenho consolo,
mas tenho paraísos que me habitam
e um gosto renitente por recomeçar.

Sábado, Dezembro 24, 2011

CONFISSÕES DE DONA NITA

Ilustração: Vânia Medeiros

O chuveiro do sítio ficava do lado de fora,
era gelado e cercado de palhas.
Eu ia no sítio pelo menos uma vez ao ano
e ficava quase o mês inteiro.
Elias tinha 17 anos e me espiava tomar banho
escondido por entre as frestas
do portão da casa pequena.
Eu fingia não vê-lo e quase sempre me banhava
dando-lhe as costas, me lavava com certo pudor.
Nos dias em que eu me achava com beleza
e desejos, eu me virava e desvirava,
eu dançava pra Elias, eu perdia os medos.
Nesses dias, o banho se alongava,
eu esfregava muito o sabonete pelo corpo
pra que o cheiro recendesse por todo o redor.
Elias, de vez em quando, entrava em casa à noite,
de cabeça baixa, não se demorava.
Elias era tímido, mas eu achava ele contente.
Eu não queria namorar Elias, eu queria namorar
os pensamentos dele.

Domingo, Dezembro 11, 2011

AO FUNDO

o primeiro golpe nos revela a sombra
o segundo golpe nos revela a guerra
o terceiro golpe nos revela o mar

Segunda-feira, Novembro 07, 2011

SOTURNO

À noite, os anjos dormem.
Quem vive na noite sabe:
ninguém nos protege da noite.
Quem vive a solidão noturna
adensada de sombra e eco,
só pode chamar por si.
E tem que cravar os cornos
no ermo do próprio medo
e desembestar a voz pra espantar
o ruído do sopro assombroso.
Implacável é o perigo da noite.
Quem vive na noite sabe que resta
aprender a ser da noite o perigo.
Porque, à noite, os anjos dormem
e nada protege a noite de nós.

Sexta-feira, Outubro 21, 2011

DÓI DÓI DÓI

Ilustração: Vânia Medeiros

Sento à minha beira
e vejo o tempo em carreira
pelos trilhos de meu corpo.
O meu pensamento,
besouro gordo, desata a voar
e eu explico:
um besouro não é um pássaro,
não tem penas.
Essa dor que me dói
na boca do estômago,
nas mãos e nas pernas,
essa dor de meus olhos
é o tempo rugindo.
O que não sofro, sinto.
E a vida a esta hora,
tremenda em meu corpo,
a vida que passa,
trespassa sua locomotiva
em meu coração.

Domingo, Outubro 09, 2011

ESTAÇÃO DA LUZ

O entra e sai dos sentidos não pára nunca, um vai-e-vem, senta-levanta, por entre portões invisíveis da estação de transbordo. Você entra e, aos poucos, tenta entender os códigos, as direções, vai descobrindo o nome de cada parada, consegue finalmente compreender em que lado está, que trem deve pegar, sente um prazer inenarrável por essa compreensão. E o trem passa, você segue nele, é maravilhoso seguir no trem, dá um arrepio bom esperar a chegada no lugar que te espera, sim, está lá o lugar e te espera também e será um encontro fabuloso. O lugar vai sentir profundamente seus olhos penetrando em todos os seus recônditos e o recompensará com memórias, afetos, vivências incríveis, e tudo será novo e, oh, que emoção é transformar as coisas e criar espaços e criar-se a si próprio dentro dos espaços. A vida é mesmo perigosa, mas não há realmente motivos para temer, pois o risco é a própria ordem da criação e isso é muito estimulante e há tanta alegria nisso, não uma alegria vulgar, uma felicidadezinha, é uma alegria profunda, violenta. E o mistério o abraça com seus braços intermináveis e lhe diz que seu nascimento foi celebrado por todos os seres fabulosos que habitam o mundo e que desde sempre souberam que você desvendaria essas coisas todas e acenderia as luzes de seu próprio caminho e chegaria nesse lugar. E, de repete, você pára na estação e desce, mas que estação é esta? Já não lembra, já não compreende, escuta o eco da própria voz e percebe que está sozinho no metrô vazio e nenhum trem passa para nenhum lado. E entende que perdeu a hora, perdeu o instante, perdeu a estação, perdeu o sentido... E tudo agora é o vazio subterrâneo onde só habitam criaturas hostis, e onde estão os deuses, a direção, o mistério? E então você é lançado vertiginosamente contra o chão e cai com as pernas abertas e nem consegue identificar nenhum sinal de erotismo nisso, porque tudo está imerso numa densa atmosfera de culpa, medo, falta e tédio. E você mergulha numa angústia tormentosa que o faz tremer estupidamente e talvez isso seja o sintoma de algum mal letal, meu deus, meu deus, meu deus! Mas recorda que isso já aconteceu antes e que há alguma saída, um jeito, talvez esperar, respirar profundamente, ou talvez dançar um pouco em qualquer ritmo, mesmo morrendo de medo de ser novamente arremessado contra o chão e desta vez com mais força, com uma força terrível que despedaçará seu corpo e seu espírito. Hesita e implora por si, e tenta qualquer coisa, qualquer gesto, qualquer palavra e percebe que, no meio do eco terrível de sua voz, surge um outro som, será que é? Sim, é um trem, outro trem, e agora você entra no outro trem, desta vez sem nenhuma expectativa, não quer chegar a lugar nenhum, quer apenas sair dali. E, sentado no trem, vai ficando um pouco mais calmo e o trem corre pra algum lugar que pode não ser tão bonito assim, mas de que importa? Você vai chegar de novo, chegar em alguma parte e agora tem o poder de inventar muita coisa, porque sobreviveu àquele tormento na estação infernal. E você começa a sentir que algo novo está nascendo dentro de si, muito devagar, pela sombra, pela sombra, algo que brilha como uma lâmpada e você roda e roda e roda como um inseto em volta do ponto de luz que se acende em meio à infinita treva.

Segunda-feira, Outubro 03, 2011

Chorando se vai

Ilustração: Vânia Medeiros

Chorar o fim das coisas
porque meu desejo rebenta
com um estridor tremendo
e segue uma reta tão certa
que estilhaça em mil pedaços
ao esbarrar violentamente
no vazio.
Chorar o fim das coisas
porque eu fui criança
e perdi um gato
ao ganhar um irmão
e chorei três dias seguidos
e não teve água com açúcar
que minha mãe me desse
que me consolasse.
Chorar o fim das coisas
porque algo nasce
quando algo morre
e é triste o fim
e é alegre o começo
e só as lágrimas sabem o quanto
é estapafúrdia essa lógica.
Chorar o fim das coisas
porque eu não entendo
o porque delas acabarem assim,
mas posso cumprir esse rito,
carpideira de meu corpo,
e deixar que o que em mim
não tem cabimento
escorra em meu gesto
e nas águas que me navegam
entre as margens
de meu fim.