O entra e sai dos sentidos não pára nunca, um vai-e-vem, senta-levanta, por entre portões invisíveis da estação de transbordo. Você entra e, aos poucos, tenta entender os códigos, as direções, vai descobrindo o nome de cada parada, consegue finalmente compreender em que lado está, que trem deve pegar, sente um prazer inenarrável por essa compreensão. E o trem passa, você segue nele, é maravilhoso seguir no trem, dá um arrepio bom esperar a chegada no lugar que te espera, sim, está lá o lugar e te espera também e será um encontro fabuloso. O lugar vai sentir profundamente seus olhos penetrando em todos os seus recônditos e o recompensará com memórias, afetos, vivências incríveis, e tudo será novo e, oh, que emoção é transformar as coisas e criar espaços e criar-se a si próprio dentro dos espaços. A vida é mesmo perigosa, mas não há realmente motivos para temer, pois o risco é a própria ordem da criação e isso é muito estimulante e há tanta alegria nisso, não uma alegria vulgar, uma felicidadezinha, é uma alegria profunda, violenta. E o mistério o abraça com seus braços intermináveis e lhe diz que seu nascimento foi celebrado por todos os seres fabulosos que habitam o mundo e que desde sempre souberam que você desvendaria essas coisas todas e acenderia as luzes de seu próprio caminho e chegaria nesse lugar. E, de repete, você pára na estação e desce, mas que estação é esta? Já não lembra, já não compreende, escuta o eco da própria voz e percebe que está sozinho no metrô vazio e nenhum trem passa para nenhum lado. E entende que perdeu a hora, perdeu o instante, perdeu a estação, perdeu o sentido... E tudo agora é o vazio subterrâneo onde só habitam criaturas hostis, e onde estão os deuses, a direção, o mistério? E então você é lançado vertiginosamente contra o chão e cai com as pernas abertas e nem consegue identificar nenhum sinal de erotismo nisso, porque tudo está imerso numa densa atmosfera de culpa, medo, falta e tédio. E você mergulha numa angústia tormentosa que o faz tremer estupidamente e talvez isso seja o sintoma de algum mal letal, meu deus, meu deus, meu deus! Mas recorda que isso já aconteceu antes e que há alguma saída, um jeito, talvez esperar, respirar profundamente, ou talvez dançar um pouco em qualquer ritmo, mesmo morrendo de medo de ser novamente arremessado contra o chão e desta vez com mais força, com uma força terrível que despedaçará seu corpo e seu espírito. Hesita e implora por si, e tenta qualquer coisa, qualquer gesto, qualquer palavra e percebe que, no meio do eco terrível de sua voz, surge um outro som, será que é? Sim, é um trem, outro trem, e agora você entra no outro trem, desta vez sem nenhuma expectativa, não quer chegar a lugar nenhum, quer apenas sair dali. E, sentado no trem, vai ficando um pouco mais calmo e o trem corre pra algum lugar que pode não ser tão bonito assim, mas de que importa? Você vai chegar de novo, chegar em alguma parte e agora tem o poder de inventar muita coisa, porque sobreviveu àquele tormento na estação infernal. E você começa a sentir que algo novo está nascendo dentro de si, muito devagar, pela sombra, pela sombra, algo que brilha como uma lâmpada e você roda e roda e roda como um inseto em volta do ponto de luz que se acende em meio à infinita treva.