Sexta-feira, Setembro 02, 2011

AHOGADA EN LA HOGUERA

Tinieblas. Cair é o movimento inevitável de quem se recusa a andar segurando em corrimãos de superfícies insípidas enfeitadinhas com imaginações desenxabidas, tudo dentro do aceitável. Cair. E o prazer da queda, que com o tempo se adquire, nunca suplanta o terror de cair novamente e de um modo inesperado, e justo no buraco mais temido, mais assombroso, o buraco de que não aprendemos a nos defender nunca. Não, não é gostoso. Temblar en las tinieblas. É inevitável, somente. Arrojo, arrojo para seguir sabendo que isto é parte do caminho que atravessa a consciência profunda da natureza, que passa pelo coração da terra, seguindo o pulso que embala as placas tectônicas, porque estou viva, ora pombas, isso tem que significar algo. Nunca se apartar deste caminho, ainda que ele escureça, congele, atordoe os sentidos de tal forma, que por períodos - que às vezes duram poucos dias, outras vezes duram meses -, nem mesmo uma boa música, nem mesmo um bom carinho são capazes de dar o mínimo de alento ao espírito em pânico. Arrojo para seguir com coragem de atravessar a alma noturna, esbarrar os olhos nos seres soturnos e, de repente, chegar a um novíssimo espaço - descoberta extasiante, gozística, isso é gostoso, isso sim! Este corpo, oh deuses, é o meu céu e meu inferno, por ele eu estendo as graças e os calafrios, ele que é todo prazer, todo pavor. Cruzá-lo e costurá-lo e afundar na própria lama, dando pulinhos com penas de galinha d`angola, bicando as paredes do organismo, pra saber, pra sentir, para estar... Este corpo, oh deuses, onde encontram guarida o caos e a calma, é onde me afogo, me afogo nesta água, corpo azul como a terra, 70% água, afogo-me, afogo-me em mim e sinto que a alma queima, o espírito defuma - água pra benzer, fogo pra sagrar -, queima, queima, é água e queima. A Ofélia que se afoga aqui no cerne de minha existência é louca porque não entende a distância entre uma coisa e seu complemento, a falta, oh, a enorme falta, a fúria do desencontro, mas fala, Ofélia fala, morre com a palavra “sargaço” explodindo em sua boca. E na água, solta corrente, queima, queima, e da fumaça, das cinzas, renasce um pássaro, um peixe, uma mulher, um homem, qualquer ser que anda pelo profundo da natureza, com os pés sujos de lama, os olhos em brasa, os cabelos cheios de algas, as mãos balançando por entre as nuvens, o coração iluminado como um sol.

2 comentários:

Thalita. disse...

Você me lembra das coisas que eu não devo esquecer. Você faz todo sentido pra mim. Todo sentido, toda intuição.

Imã.

Irmã.

Mateus Borba disse...

Você suspende a minha respiração.