Terça-feira, Setembro 06, 2011

ESSE JOGO NÃO É UM A UM

Lia o argentino e o imaginava sentado num bar, um bar antiquado, imerso num ar de distraído refinamento com uma pitada de rudeza, e ele mesmo se sentava nesse bar, acendia um cigarro, oferecia outro, comentava sobre o quanto entendia bem aquelas palavras, aqueles pensamentos. Ele sabia exatamente o porquê de se afastar, o porquê de não atender, não responder, não querê-la. Ele sabia tudo e assumia tranquilamente o dá e o desce de suas escolhas, não mudaria, não adiantava, estava pouco se lixando pra a conversa das terapeutazinhas de plantão que insistiam em querer convencê-lo de que ele deveria ser o que elas achavam perceber - muito inteligentezinhas - que no fundo ele era. Se elas queriam nomear o modo como ele conduzia as coisas de fraqueza, fuga, trauma ou o diabo, que ficassem à vontade, ele também tinha um modo eficaz de lidar com isso: a indiferença absoluta. Era claro que ela esteve sempre em desvantagem em relação a ele durante o curto período em que estiveram juntos, porque ela o queria mais, e o desejo a desesperava mais, e o orgulho nela não a impedia que repetisse palavras e atos na tentativa de arrancá-lhe o que ele nunca lhe daria o gosto de pronunciar com nenhuma frase, com nenhum gesto, e ela começava a se humilhar, e todos viam suas lágrimas e o jeito como se esgueirava para manter-se dignamente dolorosa, e todos percebiam suas saídas sorrateiras dos lugares em que chegavam outras mulheres com as quais ele se encontrava. Ela sofria muito mais do que ele, se sobressaltava com qualquer sujeito minimamente parecido - estatura, cabelos, trejeitos -, gastava tantas horas do dia seguindo seu rastro através de ruas, cafés, pensamentos, sonhos: em tantos sonhos ele estava, às vezes olhando-a com tanto carinho, mas normalmente tratando-a com aquela boa dose de desprezo com que agora ele escolhia tratá-la, e ela acordava desnorteada, tentando achar qualquer motivo pra sair da cama. Ele, por sua vez, nunca lembrava dos sonhos e tinha a cabeça ocupada com as questões que envolviam sua própria existência dentro de seu próprio corpo, de sua própria vida, e ela integrava tão somente o universo dos outros, claro que não eram quaisquer outros, eram os outros que participavam de algum modo substancial da noção que ele tinha de si próprio, mas que não deixavam de ser os outros, e, quando lia um trecho fantástico de um livro que não fosse metáfora direta pro que eles tinham vivido, não lembrava dela. Mas agora era um desses casos, na lata, o trecho do livro sendo metáfora direta pro que eles tinham vivido, a descrição perfeita do que ele sentia, do que ele pensava, e do que ele sentia e pensava em relação a ela. Se o sentimento e a relação que os unia acabassem de outro modo, se ele tivesse ficado, tentado, permitido, quando chegasse a hora do outro inevitável desfecho, ele sabia que, por mais que ela sofresse mais, ela o esqueceria mais rapidamente, e logo voltaria a exibir aquele sorriso aberto e sonhador e encontraria outra pessoa e recomeçaria tudo sem ter nem mesmo pensado em se suicidar, sem duvidar muito de tudo aquilo que se repetia, e amaria um novo homem como se nunca tivesse amado mais ninguém, ou como se seu amor só agora encontrasse realmente o motivo para doar-se, enquanto ele se afundaria em lembranças e se exasperaria na fuga dessas lembranças e desviaria seus rumos, e encontraria mulheres sem graça, e azedaria seus dias ao lado delas. Ele nunca poderia repetir o mesmo erro, aquilo que ele chamava erro, ele não poderia dá-lhe essa vitória, porque ele sabia que aquilo era um jogo, e ele não seria medíocre a ponto de perder de novo, por isso optava por aquela saída elegante, se retirava em segurança, com estilo. Mas neste instante, lhe ocorria suspeitar que, no fundo, ela, que provavelmente não suspeitava, era a verdadeira vitoriosa, porque as rotas que ele traçava para afastar-se dela aumentavam o rastro daquela mulher em sua vida, e ele às vezes se deparava surpreso com o pensamento nela e não entendia nada, porque ele já tinha decidido que aquilo que ele sentia por ela era nada, mas ela continuava existindo e tornava-se enorme diante dele e quanto mais ela crescia, mais ele a repelia e a tratava, quando a encontrava casualmente, como uma pessoa absolutamente indistinta, e ela se entristecia e decidia por esquecê-lo de uma vez por todas e realmente começava a esquecê-lo. Ela conseguia, ele e o argentino sabiam que, no final das contas, ela ganhava de qualquer jeito, e ele começava a passar de uma saída elegante pra uma fuga desesperada, mas mantinha a pose e ninguém percebia nada, a não ser que ele ia ficando com o humor cada dia mais ácido e com um resfriado que começava a integrar-se à sua personalidade pelo tempo que durava.