Segunda-feira, Setembro 26, 2011

IÇÁ

   As crianças da cidade, até completarem 5 anos de idade, amavam Içá. Dos 5 aos 10, apontavam pra Içá, choramingavam alguma coisa no ouvido da mãe e se escondiam. Os adolescentes pregavam pequenas peças em Içá: lhe atiravam objetos velhos, instigavam cachorros a perseguir Içá ou eles mesmos perseguiam Içá, munidos de porretes e garrafas. Içá corria sem fôlego até um beco muito escuro onde mais ninguém gostava de entrar. Os adultos, de 25 a 40 anos, davam pouca importância a Içá e, quando alguém falava nele, eles diziam que Içá era inofensivo. Apenas se enraivavam e se punham a ameaçá-lo caso Içá fizesse alguma coisa errada que, de algum modo, os incomodasse. Às vezes, uma pessoa ou outra filosofava no quarto, sozinha ou entre amigos, usando Içá como matéria. Os moradores da rua que tivessem de 40 a 60 anos davam pequenas esmolas para Içá em troca de modestos favores: que ele limpasse jardins, comprasse jornal ou outra bobagem qualquer, levasse e trouxesse recados, carregasse coisas pesadas. Os senhores e senhoras que tinha de 60 a 80 anos davam comida ou café ou roupas para Içá, através da brecha do portão, como exercício de caridade. Os que passavam de 80, diziam coisas que viravam mito na comunidade sobre a idade e o nascimento de Içá. Em algum momento da vida, todos se perguntavam o porquê de Içá não ter morrido ainda. Todos imaginavam uma forma de matá-lo, mas logo afastavam da cabeça esses pensamentos ruins. Todos, em algum outro momento, alimentavam a idéia de que Içá pudesse ser uma espécie de santo ou coisa parecida, mas antes de comentarem com alguém, faziam-se o favor de esquecer essa besteira.
   Içá tinha cara de peixe e dois sexos. Falava embolado, cantava bonito e suas canções nunca tinham letra. Um dia, Içá foi andando até o fim da rua e desapareceu. Alguns dizem que acabou se afogando, outros, que se enfiou na terra junto com as minhocas. Por algum tempo, todos pensavam em Içá antes de dormir e tinham medo que ele voltasse para lhes cobrar algo. Passado um ano ou dois, todo mundo o esqueceu.

1 comentários:

Pedro Paula disse...

Içá é metáfora dos que se perderam. A cronologia dele é a idade dos arrazoados que, entre incômodo e compaixão, interagiam com sua falta de propósito. Se é a experiência compartilhada que dá sentido às nossas atitudes, é difícil imaginar que sentido orienta os que vivem em sua realidade particular. Gostei também que o texto traz em seu estilo a despretensiosa falta de razão que há na personagem: Içá estava por ali, causava isso ou aquilo, era assim ou assado. E sumiu sem deixar vestígios: lírico e metafísico!