Sábado, Setembro 10, 2011

OS AFOGADOS

Correndo e correndo, vou em direção à fonte que justifica todo o meu naufrágio, cruzo uma ponte, ofegante, e dou de cara com seu espectro jorrando no centro do pátio, essa é a grande frase de nosso segredo, quando eu te alcanço, você se tornou um fantasma de si próprio, não há meios de transpor o véu que nos separa enquanto nos desejamos, e você continua sendo o lugar onde eu estou quase chegando, te vejo no horizonte, e a estrada pela qual caminho se desdobra, e você nunca sai do horizonte, você é onde eu nunca chego, aislado de mim por minha própria sede, não é triste, meu querido?, e eu que achei que pudesse haver uma vida na qual minha fúria encontrasse um pouco de repouso através das horas, por entre os cômodos da casa, e eu sempre querendo o outro, você, meu outro, eu queria sair de mim um pouco, e eu não sabia que sair de mim era cair dos precipícios de minha solidão, e o único “outro” que me esperava era eu mesma, transtornada pelas descobertas, sabe, acho que pesa o fato de meu corpo ter a qualidade de receber outros corpos dentro de si, de acolher, guardar, eu acho que isso alimenta o modo como eu te quero, como eu tento te engolir com meu ventre, com minha alma, e você tá aí, não é?, perdido em seus pensamentos e eu aqui te olhando sem nem ter mais a esperança de participar de algum modo de seus teoremas, e te vejo a tantas léguas de mim, perdido na altura que há por trás dessa janela em que você apóia seus cotovelos e solta sua fumaça, e te amo tanto, mas sei que é um sonho que possamos nos amar, é assim, desse jeito como te vejo agora: você aí na janela parece um quadro, parece um sonho, você é um anjo, um anjo impiedoso, você poderia me salvar, você me salvaria se me envolvesse inteiramente em seu fogo divinal, e essa falta de realidade que você assume enquanto te contemplo forma uma névoa instransponível entre nós, tudo se liquefaz em meio à sua inexistência, é pura impossibilidade o que me move até você e que te move até mim, e é assim que sempre escapamos um do outro, não há seres mais distantes e desconhecidos um do outro do que nós, que nos amamos, sabe, eu nunca pude te ver desde um ponto de vista objetivo, eu estou cega na idéia que meu amor faz de você, ninguém sabe menos de sua realidade, de sua concretude, do que eu, e ao mesmo tempo, oh grande trunfo, ninguém conhece mais sua sombra, sua luz, seu mistério, seu insondável, e olho pra você com meus gritos imensos, você sabe o quanto eu grito, o quanto imploro, “vem, chega perto, toca em minha alma, pelo amor de Deus”, mas você está petrificado e lúcido hoje, você não pode se mover, eu queria te convidar pra dançar, te arrancar dessa janela, te envolver num lance em que nossos corpos se implicassem de modo irremediável, mas você estaria indisposto, o seu corpo ficaria desajeitado, desconfortável, frio, nossas peles se estranhariam, e eu me desespero em não poder te tocar porque o você que amo é inteiro névoa, e, se encosto minhas mãos em sua pele e minhas mãos se fundem com sua pele, é a pele de um cadáver que sinto, do meu próprio cadáver, morta de amor em você, ainda que haja os momentos em que nos enlacemos maravilhosamente, isso é também uma ilha, não tem outro significado do que ser algo perdido em meio ao deserto amoroso, e, se nesses dias excelsos, eu caio na armadilha de considerar a prova viva do amor em nosso ato, porque o amor que fazemos é o mais alto grau de beleza que há na natureza, fico atrelada às saudades de você, é com as saudades de você que eu me deito, nos distancia no tempo o amor, e nos dias em que você consegue finalmente encostar em mim, nos dias em que você desce de sua redoma de luz e sabedoria e vem rasteiramente alcançar meus tornozelos como um animal qualquer, eu já não reconheço seus olhos, sou apenas uma mulher que um desconhecido toca, um desconhecido gentil, tenho certeza de que você gosta de mim, tenho certeza de te ter e de não te amar, que tristeza, meu amor, que tristeza saber que nessa hora em que você chega onde eu te esperava e eu te sinto tão presente, tão comum, tão ao meu lado, e sei que te tenho inteiramente, nessa hora, sou eu que já não está, e já não te amo, e já não existe amor, existe apenas nós dois e eu já nem sei mais o que significa nós dois, não cabemos na proximidade, estou apavorada olhando pro tamanho desse amor, ele é espaçoso demais, é enorme, só possível de existir entre dois pontos distantes, todo feito de distância, e se você chega, eu me afasto, e se eu chego, você se afasta, e se nós chegamos, o amor salta fora, nós só amamos o que poderíamos ser mas nunca alcançamos, lembra de um rapaz de que te falei, com o qual eu talvez fugisse e te deixasse?, eu gostava dele, ele me fazia sentir bem, ele era um homem bom, ele não me deixava perdida e eu achava que talvez eu e ele pudéssemos construir um amor realmente bonito, mas quando eu te contei sobre ele, eu já sabia que eu não queria aceitar um amor que se construísse sem que eu amasse, esse conselho dado por minhas avós, entende?, eu compreendi isso, imagina, logo eu, tão louca, tão crente, tão sentimental, e agora eu entendo que o problema não gira em torno de que eu não saiba te amar ou de que você não me ame de verdade, a questão é que quando nos amamos, o amor está onde não estamos e, sob essa iluminação, eu posso realmente escolher, eu posso cuspir os sargaços que me sufocam a boca e subir num barco que deriva no mar, percebe? eu quero te amar, mesmo correndo o risco de me afogar nessa sede abissal, eu quero repetir mil vezes que te amo e que te amo, ainda que você me olhe com esse desprezo sabichão tentando desautorizar minhas teorias e meu romantismo, eu vou te amar até queimar com minhas centelhas o último fiapo de sua indiferença, até que nosso amor se consuma em suas próprias cinzas ou até que exploda o vazio que nos liga, desatando-nos de uma vez por todas.


4 comentários:

Felipe B. disse...

imerso, afogado. aos prantos diante das impossibilidades que um corpo pode abrigar. a ausência de sabor que tem acometido as coisas. de como o círculo de fumaça que nos protege do risco, do encontro, da distância, se revela venenoso e impossível. diante da falta de habilidade com a existência e com a existência do amor, que está quando não estou.

Nti Uirá disse...

nossa, mas que bonito. vc percebe? bato palmos freneticamente, em pé na frente da cadeira e com os olhos intensos, arregalados de emoção! :}

Mateus Borba disse...

Eu só sei sorrir e bater palmas. Você é das grandes, menina do sorriso de abarcar a vida.

Ramon de Alencar disse...

...
-Estamos sempre aquém de algo, amando tudo o que está longe, pois ao olhar para cima, penso se as estrelas ainda se chamariam assim se pudéssemos tocá-las.

Minhas palavras são amigas das tuas.