Sábado, Janeiro 14, 2012

Deliquescência, a palavra santa.

Deixo que a lama cubra-me o corpo, não pra afogar-me, mas porque quero beijar a boca visguenta das minhocas sagradas – mas é claro que são sagrados estes seres que não temem o escuro e não tem claustrofobia e ajudam a terra a respirar. Coberta de lama, sinto-me embrenhada na terra, é um desejo que tenho de embrionar-me no subterrâneo, pra que, travestida de minhoca, eu também possa ajudar minhas trevas a respirarem, e delas eu rebente sendo entregue a uma luz sem alvuras de botique. É verdade que agora estou cheia de dor, e você sabe o quanto certas coisas que a vida faz com a gente doem, e essa coisa de amor e desamor e solidão, você sabe o quanto doe, eu não vou negar que dói muitíssimo, eu não vou esconder minha cara de dor, olha aqui minha dor, mas esse meu jeito de morrer não é nem de longe sinal de desistência ou covardia, entenda bem, eu morro forte como um maratonista, apenas entrego meu corpo a uma imagem mais próxima de seu destino: o ventre aberto - entranhas à mostra em todo seu esplendor e podridão. E, para além disso, eu morro porque conheço a morte e sei o quanto ela é grande e vívida e verdadeira, então preciso experimentá-la muitas vezes. Em outras palavras, eu não posso deixar que a amargura me invada, eu não posso deixar que o medo ganhe mais corpo do que teve até agora, pelo contrário, eu quero poder falar dessa memória, desses desejos, sem névoas nos olhos, sem pedras na garganta, por isso agora lanço pedras no abismo, por isso agora cruzo as névoas, por isso ando no meio da rua nua e melada de lama porque aquelas roupas todas já não me serviam e me atrevo a tudo que seja sincero como esta nudez e esta lama são. Nessa viagem que traço pelos porões de minha alma e do mundo, eu teria mais histórias pra narrar do que Marco Polo, mas não há tantas palavras pra descrever a escuridão. E é bom esclarecer que eu vim a este bar foi pra encontrar-me comigo mesma, eu não tô esperando ninguém a não ser a mim e se alguém vier acompanhando-me, então que legal, vamos conversar e ver o que acontece. E se alguém chegar como você e escavar com esses olhos fundos meu rosto e minhas sombras e disser, “olha só como somos vastos”, pode ser que eu lhe mostre meu corpo enlamaçado e que descubramos quantas maravilhas brotam no mangue. Talvez alguma coisa comece agora, mas o mais importante não é o que começa, mas o que acontece, vamos abrir espaços. É assim e só: coragem e paciência pra, com uma cara de susto, virar verme e morrer e, com uma cara de susto, morder o verme e nascer. Todo esse acontecimento é lindíssimo, você não acha?

Deliquescência, a palavra santa.

4 comentários:

Clara Clariana disse...

Coberta de lama mais terra subterrânea, subcutânea, respira, sente dor, sabe da morte e se deixa morrer. abre espaços. Uma perséfone
Me aproprio destas suas palavras, agora tb fazem parte de mim, me traduziu algo aqui dentro, com palavras. Agradecida.

Fabrício disse...

Só você para tornar digno um "encontro na lama".


bjo

Daniel Farias disse...

te visito. me deleito.

Olga Lamas disse...

Obrigada. De novo. E de novo.